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Pode uma única espécie reduzir a resiliência de todo um ecossistema?

  • Foto do escritor: Rafael Brandini
    Rafael Brandini
  • há 13 minutos
  • 3 min de leitura

Na contemporaneidade, o movimento humano em contínuo crescimento pelo globo tem facilitado a introdução constante de espécies em novos territórios. Para além de seu ecossistema de origem, organismos exóticos podem estabelecer-se com enorme sucesso em um novo ambiente, competindo com espécies nativas de forma extremamente eficaz. Caracterizando-se então como exóticas invasoras, essas espécies alteram a dinâmica natural de comunidades vegetais à medida que atingem altas densidades e dominância, impactando em produtividade, ciclagem de nutrientes e regimes de distúrbio, causando até mesmo extinções locais. No Brasil, gramíneas em especial têm sido objeto de estudos há décadas: as espécies de Urochloa spp, conhecidas como braquiária.



Para entender o impacto dessa invasora, podemos olhar para o Cerrado, um ecossistema savânico tropical, controlado por distúrbios em dinâmicas muito particulares. O Cerrado é frequentemente descrito como uma "floresta de cabeça para baixo", já que, ao contrário das florestas tropicais úmidas, grande parte de sua biomassa está escondida sob a terra. A capacidade de regeneração desse ecossistema após um distúrbio não depende da altura das árvores, mas da integridade de órgãos subterrâneos de armazenamento e da manutenção de um banco de gemas viável. Porém, ainda hoje, as características da vegetação existente no subterrâneo são habitualmente negligenciadas, inclusive no contexto de invasões biológicas.


Partindo desse contexto, Letícia Giacom (mestranda do Laboratório de Ecologia da Vegetação, UNESP/Rio Claro) e colaboradoras decidiram investigar como a presença da espécie exótica invasora, Urochloa brizantha, alteraria os componentes subterrâneos do Cerrado, e sua consequente resiliência. Em artigo publicado esse ano no Journal of Vegetation Science, intitulado “Mudanças Estruturais e Funcionais nos Componentes Subterrâneos Após a Invasão por Gramíneas em uma Savana Tropical”, a Estação Ecológica de Itirapina, localizada no Estado de São Paulo, funcionou como a base de testes. O local tem a maior parte de sua vegetação composta por ecossistemas abertos do Cerrado, caracterizados por um estrato herbáceo contínuo e rico em espécies.


Com uma metodologia de escavação e análise volumétrica do solo, foram comparadas áreas livres e dominadas por esta espécie invasora. Em parcelas de 0,25 × 0,25 m, a equipe escavou o solo até 30 centímetros para coletar e classificar cada órgão de armazenamento e, utilizando um trado com 5 cm de diâmetro, escavou até 1 metro de profundidade para analisar as raízes finas. Foram comparadas manchas onde a braquiária detinha mais de 90% de cobertura com manchas preservadas, onde ainda prosperam espécies nativas como Gymnopogon foliosus e Axonopus pressus.



Os resultados mostraram que a braquiária não apenas compete por espaço, mas que as áreas ocupadas por ela são mais homogêneas. Abaixo da superfície, as áreas invadidas apresentaram dominância de raízes finas e rizomas não lenhosos da espécie invasora. Por sua vez, a abundância dos órgãos subterrâneos típicos das plantas nativas foi muito menor do que nas áreas não-invadidas, assim como o tamanho do seu banco de gemas. Os rizomas lenhosos, essenciais para a persistência e expansão de arbustos nativos após o fogo, desapareceram quase por completo.


Espécies como Jacaranda decurrens e Andira humilis, que dependem dessas estruturas para sobreviver por décadas debaixo da terra, simplesmente não conseguem competir com a ocupação agressiva da espécie invasora. As raízes finas da braquiária estavam concentradas  nos primeiros 30 cm de solo, favorecendo sua capacidade de absorção de água e nutrientes em relação às plantas nativas. Ainda, nas áreas invadidas, o solo era menos ácido e mais fértil superficialmente, com maior teor de magnésio e uma ciclagem de nutrientes acelerada, favorecendo ainda mais a braquiária.


A pesquisa conduzida por Letícia traz resposta à nossa pergunta-título: um retumbante sim. Uma única espécie invasora pode reduzir a resiliência de todo um ecossistema ao influenciar justamente a sua dinâmica funcional. Ao afetar negativamente os bancos de gemas e alterar a ciclagem de nutrientes em um solo naturalmente pobre e ácido, espécies exóticas invasoras como Urochloa brizantha podem empurrar o sistema para além de um ponto de inflexão. O mais impactante é que as modificações provocadas podem conduzir ao sistema ao chamado efeito de legado. Mesmo que a braquiária fosse removida amanhã, o ecossistema poderia não conseguir mais retornar ao seu estado anterior, pois as ferramentas de regeneração estabelecidas foram perdidas (como por exemplo a regeneração via banco de gemas). Nesse caso, os esforços de manejo e restauração são profundamente dificultados, o que dá ainda mais força à necessidade de controle dessa espécie.


Referências:

GIACOM, Letícia et al. Structural and Functional Shifts in Belowground Components Following Grass Invasion in a Tropical Savannah. Journal of Vegetation Science, [s. l.], v. 37, n. 2, 2026.

BEGON, Michael; TOWNSEND, Colin R. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. Tradução de Fabiana Schneck, Nelsa Cardoso e Renan Maestri. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.


 
 
 

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