Biota-Cerrado on Fire: o fogo como ferramenta de manejo e restauração no Cerrado no Antropoceno
- Rafael Brandini

- 13 de ago.
- 4 min de leitura
O Cerrado é a savana tropical mais biodiversa do mundo, com aproximadamente 12 mil espécies de plantas. Grande parte das espécies pertencem ao ao estrato herbáceo, caracterizado por representantes de famílias como Poaceae (gramíneas), Fabaceae (leguminosas) e Asteraceae. No bioma vivem espécies animais-símbolo, como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e a seriema. Não somente, é fornecedor de importantes serviços ecossistêmicos, como armazenamento de carbono no solo e regulação hídrica de reservatórios, sendo responsável pelo abastecimento de seis das oito grandes bacias hidrográficas do Brasil. O mais fascinante é que a história ecológica e evolutiva desse ecossistema envolve um fator que integra a cultura de diversos povos originários do território: o fogo.

O território do Cerrado é caracterizado por diversos tipos de vegetação, inclusive florestas. Porém, é dominado por ecossistemas campestres e savânicos com plantas adaptadas a locais com bastante luz, e que apresentam características que lhes permitem persistir e sobreviver após a ocorrência do fogo, como casca espessa nas árvores, investimento em órgãos subterrâneos especializados, portadores de gemas e reservas energéticas. Ainda, muitas espécies apresentam estímulo para rebrota e floração após um evento de fogo, seguida pela dispersão de sementes e germinação. O ponto é que, frente a essa enorme variedade de adaptações, surge também uma imensidão de perguntas a serem respondidas.
Um maior entendimento do processo de regeneração, tanto por meio da germinação quanto da rebrota, é essencial para a compreensão da resiliência das comunidades vegetais no Cerrado, sobretudo no atual contexto de mudanças climáticas e alterações no regime de fogo. Essas alterações podem modificar a frequência, a carga de material combustível e o período de ocorrência desses eventos de fogo. A supressão do fogo, prática justificada por emissões de CO₂ para a atmosfera, pode levar à perda de biodiversidade e a alterações na estrutura da vegetação, que resultam muitas vezes na degradação das comunidades. No cenário climático atual, faz-se necessária uma melhor compreensão dos efeitos do clima sobre o fogo e do resultado dessa relação entre comunidades vegetais e animais. Desta forma, o fogo pode ser utilizado como ferramenta para a manutenção da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos.
Por isso, a partir da necessidade de utilização do fogo como ferramenta para a manutenção da biodiversidade e serviços ecossistêmicos, como proposta investigativa para compreensão holística do Cerrado, nasce o Biota-Cerrado on Fire. O projeto experimental, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, com apoio da Fundação Grupo O Boticário de Proteção à Natureza, realiza-se na Reserva Natural Serra do Tombador (Cavalcante, Goiás), a partir do estabelecimento de parcelas com diferentes tratamentos de queima para análise de múltiplos grupos taxonômicos, seus padrões, respostas e interações, em diferentes níveis espaciais e temporais. A realização de longo prazo — tendo os experimentos iniciado ainda em 2013 e o projeto em 2023, com duração de 5 anos — visa o fornecimento de dados e cenários que podem ser utilizados para a parametrização e validação de modelos, importantes ao oferecimento de suporte técnico e científico para o manejo, conservação e restauração de áreas protegidas.

A equipe sob responsabilidade da Profª. Drª. Alessandra Fidelis (UNESP - Rio Claro), liderada também pelos Profs. Drs. Vânia Pivello (USP - São Paulo), Davi Rossatto (UNESP - Jaboticabal) e Alexander Christianini (UFSCar - Sorocaba), é composta por um grupo interdisciplinar de pesquisadores, gestores de áreas protegidas, profissionais de organizações não-governamentais e órgãos ambientais federais, além de estudantes de graduação e pós-graduação, vinculados a diferentes instituições nacionais (UNESP, UNICAMP, USP, UFMG, UFG, UFSCar, Instituto Florestal, ICMBio, ISPN e Fundação Grupo Boticário). Além disso, o projeto conta com a participação de colaboradores internacionais (Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, França e Austrália), incluindo também países do Sul Global, como a África do Sul. É válido enfatizar que mais de 60% da equipe é composta por mulheres, o que configura uma importante ação afirmativa.
Para além do comportamento do fogo sobre as plantas, as avaliações experimentais concentram-se nos efeitos do fogo sobre os componentes acima e abaixo do solo das comunidades vegetais, utilizando abordagens taxonômicas, filogenéticas e funcionais. Além disso, tem-se como objetivo a avaliação dos efeitos do fogo nas comunidades de invertebrados, vertebrados e as interações entre plantas e animais. O funcionamento dos ecossistemas também é avaliado através da análise dos efeitos do fogo na dinâmica de carbono e nitrogênio, assim como na ecofisiologia das plantas. Finalmente, os dados produzidos pelo projeto serão utilizados na construção de um modelo conceitual que visa não somente a melhor compreensão da dinâmica do fogo no Cerrado, mas também dar apoio a tomadas de decisão em relação ao manejo e restauração destes ecossistemas.

Para o Biota-Cerrado on Fire, o uso do fogo deve ocorrer como uma ferramenta para a manutenção da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos, não como um mal, que deve ser suprimido. Por isso, aspira-se a conexão dos dados científicos adquiridos com gestores locais e demais atores envolvidos no planejamento do manejo do fogo. Para além da academia, o projeto pretende a integração entre cientistas multidisciplinares, ONGs, brigadas locais de combate a incêndios e povos tradicionais.


Comentários